Mostrando postagens com marcador poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poemas. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de agosto de 2012

LEVEZA

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante;
mais leve.

E a cascata aérea 
de sua garganta, 
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o esejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante, 
mais leve.



(Cecília Meireles)

EPIGRAMA Nº 9

O vento voa, 
a noite toda se atordoa,
a folha cai. 

Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite?sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?



(Cecília Meireles)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha essas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha esse coração 
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(Cecília Meireles)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Baião do Bicho Desconhecido

Quem nunca quis enxergar,
quem nunca soube aprender
não sabe o que está perdendo
nem o que vai se perder.

Há maravilhas no mundo
- mesmo um pequeno besouro -
riquezas vivas trocadas
por um punhado de ouro.
Nas dunas, mangues, caatinga
matas, serras, pantanais,
há sempre desconhecidas
maravilhas animais.

Quem nunca soube enxergar,
quem nunca quisa aprender
não sabe o que está perdendo
nem o que vai se perder.

Mas...
mais?
Mais mais!
Mais e mais
e muito mais...



Autor: Paulo Robson de Souza
Nasceu na Bahia. É biólogo, professor e adora escrever sobre bichos e plantas.
O poema encontra-se no livro Animais mais mais.
Fonte: www.ciencia.org.br

sábado, 14 de julho de 2012

Meu poema preferido

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drumond de Andrade II

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drumond de Andrade

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

domingo, 3 de junho de 2012

Poeminhas Cinéticos

Poema de Millôr Fernandes.


Podemos utilizar como estímulo o poema abaixo para iniciarmos a criação de Poemas Concretos.

Era um homem bem vestido
Foi beber no botequim
Bebeu muito, bebeu tanto
Que
       s
aiu
              d
e
                     l
á
                              a
ssim.
As casas passavam em volta
Numa procissão sem fim
As coisas todas rodando

O moço entra apressado
Para ver a namorada
E é da seguinte forma
                           escada.
                       a
              sobe
        ele
Que
Mas lá em cima está o pai
Da pequena que ele adora
E por isso pela escada

             ele
                   
                              embora.



Ou:

Então, gostou das ideias? 

Mãos à obra!

Cantiga para não morrer

Quando você for embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dois e dois: Quatro

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

Como é azul o ocenao
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás o terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.


Ferreira Gullar, seleção de Alfredo Bosi, Global

terça-feira, 8 de maio de 2012

OU ISTO OU AQUILO

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guardo o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se isto ou aquilo.


(MEIRELES, Cecília. Ou Isto ou Aquilo. Rio de Janeiro, 1981)

domingo, 6 de maio de 2012

MULHER VESTIDA DE GAIOLA

Parece que vives sempre
de uma gaiola envolvida,
isenta, numa gaiola,
de uma gaiola vestida,

de uma gaiola, cortada
em tua exata medida
numa matéria isolante:
gaiola-blusa ou camisa.

E, assim como tu resides
nessa gaiola, cingida,
o vasto espaço que sobra
de tua gaiola-ilha

é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto em todos os lados
(menos no que te limita).

Pois nessa gaiola externa
onde tudo tem cabida
onde cabe Pernambuco
e o resto da geografia.

três bilhões de humanidade
e até canaviais de usina,
sei que se debate um pássaro
que a acha pequena ainda .

Tal gaiola para ele
mais do que gaiola é brida;
como cárcere lhe aperta
sua gaiola infinita

e lhe aperta exatamente
por essa parede mínima
em que sua gaiola-mundo
com a sua faz divisa,

Contra essa curta parede
entre ti e ele contígua,
que te defende e para ele
é de força, se é camisa,

todo o dia se debate
a sua força expansiva
(não de pássaro, de enchente,
de enchente do mar de Olinda).

Por que ele a quem sua gaiola
de outros lados não limita
deseja invadir o espaço
de nada que tu lhe tiras?

Por que deseja assaltar
precisamente a área estrita
da gaiola em que resides,
melhor: de que estás vestida?


A Educação pela Pedra e Outros Poemas/ João Cabral de Melo Neto, Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

UMA NORDESTINA

Ela é uma pessoa
no mundo nascida.
Como toda pessoa
é dona da vida. 

Não importa a roupa
de que está vestida.
Não importa a alma
aberta em ferida.
Ela é uma pessoa
e nada a fará
desistir da vida.
Nem o sol de inferno
a terra ressequida
a falta de amor
a falta de comida.
É mulher, é mãe:
rainha da vida.

De pés na poeira
de trapos vestida
é uma rainha
e parece mendiga:
a pedir esmolas
a fome a obriga.

Algo está errado
nesta nossa vida:
ela é uma rainha
e não há quem diga. 


Ferreira Gullar


  • Qual o título do poema?
  • Quem é o autor do poema?
  • De quem fala o poeta e o poeta?
  • Como você descobriu? Escreva os versos que demonstram a sua descoberta.
  • Que sentimentos despertou em você esse poema?
  • Em que lugar/região o autor se inspirou para escrever os versos?
  • Reescreva o poema, mudando alguns versos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O BICHO

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem. 



Manuel Bandeira

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Poema Sujo - 1975

nada
vale
nada
vale
quem 
não 
tem
nada
no
v
a
l
e

                                                                                                         TCHIBUM!!!!!




Este poema faz parte da seleção realizada por Alfredo Bosi, Melhores Poemas, Ferreira Gullar